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29

Out

VELHAS REALIDADES NOVAS
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VELHAS REALIDADES NOVAS

 Os portugueses estão hoje a pagar o preço de uma realidade histórico-político-cultural muito antiga e que já aí está de novo a manifestar-se, depois desta última invetiva do Primeiro-Ministro, Pedro Passos Coelho, no sentido de pôr um fim no Estado Social, ou seja, extinguir os acessos à Saúde e à Educação nos termos definidos na Constituição de 1976, e anular o direito dos portugueses às suas reformas.

 

Tal como neste último domingo salientou Marcelo Rebelo de Sousa, no seu programa de entretenimento, não se pode dizer que se não conhecia que era este o pensamento político de Pedro Passos Coelho, quer por tê-lo publicamente exposto por todo o País, ao tempo da campanha interna no PSD que o levou aí ao poder, quer pelo facto de ter dado este seu pensamento à estampa.

Claro que Pedro Passos Coelho teve depois que dar o dito por não dito, logo passando, durante a campanha eleitoral, a defender, precisamente, o contrário. Sem espanto, embora por pequena margem, a verdade é que lá acabou por levar de vencida o PS de José Sócrates, no que foi até muito facilitado por aquelas diversas atitudes de Mário Soares ao tempo. E também, claro está, pela tremenda campanha operada pela grande comunicação social.

Tudo isto, porém, talvez nunca tivesse tido lugar se o PCP e o Bloco de Esquerda tivessem tido o cuidado mínimo na defesa dos reais interesses dos portugueses, até porque eles conheciam muitíssimo bem o pensamento político de Pedro Passos Coelho, sabiam que na Presidência da República estava uma personalidade conservadora e perceberiam facilmente que estes dois dados, fortificados com uma maioria parlamentar, teriam de tornar a vida dos portugueses ainda pior do que já estava. Bom, o resultado está hoje à vista, sendo certo que ainda se não viu tudo...

Aliás, quando ontem o Primeiro-Ministro explicou o seu conceito de refundar o memorando, fê-lo sob o argumento de, um ano e meio depois da assinatura do mesmo, se ter percebido que é essencial reformar o Estado... Ora, esta é uma explicação que não colhe, porque ainda antes de existir memorando já Pedro Passos Coelho havia escrito, no tal seu livrinho, que pôr um fim no Estado Social era um seu objetivo.

Mas aí nos chegou agora a velha ideia de Pedro Passos Coelho, brandida desde a sua candidatura à liderança do PSD: operar uma revisão constitucional que permita pôr um fim no Estado Social, tal como desde sempre o vimos e que é o próprio de um país moderno, do século atual e sediado no espaço europeu.

Para almejar este objetivo, nos termos constitucionais de hoje, é essencial a colaboração do PS. Ora, já ontem e hoje o PS e António Arnaut, respetivamente, vieram garantir que o PS nunca dará o seu apoio a uma tal ideia, mas a grande verdade histórica, já com muito mais décadas que a própria III República, é a que se conhece muitíssimo bem do comportamento político do PS e dos defensores do dito socialismo democrático antes de Abril: a direita grita, logo eles obedecem.

Neste sentido, têm razão o Bloco de Esquerda e o PCP, porque estar disposto a ir estudar com a atual direita a ideia de refundar o memorando é entrar num jogo de onde, pela experiência de décadas, se sabe muitíssimo bem que o PS acabará por ceder. O caminho - o único caminho - é responder, de um modo solene, que o PS não estará disponível para discussões sobre este tema, por mínimas que sejam. Mas irá o PS de António José Seguro proceder assim? Não acredito.

Nunca esqueço, a este propósito, a mudança operada com o apoio imprescindível do PS no plano constitucional em torno da Saúde: onde estava Serviço Nacional de Saúde universal e gratuito, passou a estar Serviço Nacional de Saúde universal e tendencialmente gratuito. E qual foi o resultado? Pois, aí está o Primeiro-Ministro, Pedro Passos Coelho, a explicá-lo: há que extingui-lo. Sim, porque é disto que se trata...

Termino, por isso, com este pedido ao leitor: guarde este meu texto e mantenha-o bem à mão, continuando a estar atento à grande comunicação social em torno deste terrível perigo da revisão constitucional que se pretende que o PS aceite. Quase com toda a certeza, o leitor lá acabará por ver o PS embarcar nesta ideia da atual maioria. Para já, esteja atento à Quadratura do Círculo e à Prova dos Nove, e tente ler o livro de Raquel Varela, QUEM PAGA O ESTADO SOCIAL EM PORTUGAL?, de que pode ouvir num excerto da entrevista num dos vídeos do Google. Esteja atento, porque o PS, politicamente, não é e nunca foi de fiar...

 
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