Primeira Página Jornal Opinião GRANDES PÂNDEGAS
 

Dom

01

Abr

GRANDES PÂNDEGAS
Opinião

UM ABISMO

Foi interessante e muito elucidativo ter podido comparar a recente greve geral que teve lugar em Espanha, com as duas recentes em Portugal, muito em particular a anterior.

E sobressai desta comparação uma conclusão muitíssimo forte e de há muito conhecida: o modo desinteressado, egoísta e divisionista, como os portugueses acabam por não defender o interesse que é o de cada um e o próprio interesse nacional.

Não se trata, naturalmente, de um dado novo, porque são mui diversos os exemplos que ilustram a realidade que ora voltou a ver-se. Basta recordar como em Espanha teve lugar uma guerra civil em torno de valores, com comunistas de um lado e católicos do outro, com republicanos no primeiro lado e com monárquicos no segundo, e olhar a completa incapacidade dos mil e um grupúsculos de antes de 25 de Abril em Portugal para derrubar o regime da Constituição de 1933. Quarenta e oito anos! E como, num ápice, (quase) todos passaram a ser de esquerda, para, aos poucos, se irem passando para a direita, na filiação ou na prática política, até ao atual desastre final.

Esta greve espanhola mostrou o abismo que separa os dois povos, e tão multifacetados que são os que dão vida a Espanha. Aqui, com ou sem vantagens, os sindicatos, e de todas as centrais sindicais, uniram-se contra a opressão e a perda de dignidade social. Entre nós, e como quase sempre, lá nos foi dado ver a nossa mais reduzida central sindical, a UGT, voltar a não estar presente nas mais que naturais e justas reações à destruição rápida da dignidade dos portugueses, hoje generalizadamente pobres e sem saída.

Será bom que, num gesto com alguma luz, o PS e a UGT tenham presente a intervenção de há dias, de Jorge Sampaio, no Porto. Ninguém que ainda tenha um ínfimo de amor pátrio tem o direito de assobiar para o lado, como hoje se vai podendo ver com a atual liderança do PS e com a UGT, esta já de um modo mais ligado à sua intervenção social de sempre. Esperemos que sobrevenha a coragem que falta.

Por fim, nunca esquecendo aquela tragédia da Guerra Civil de Espanha, recordo também o retorno de nacionais, bem como a forte saída dos mesmos para lugares diversos do Mundo: em Espanha, deu-se um guerra na defesa de valores; aqui, nem um tiro, tudo se ficando por mera conversa escondida de café. Um abismo, que determina, mau grado tudo, a fantástica diferença entre nós e espanhóis. É pena.


GRANDES PÂNDEGA

Tenho aqui de confessar ao meu Caro Leitor que ri com gosto, e de um modo aberto e sonoro, quando há dias tomei conhecimento da opinião da CIA, expressa no respetivo sítio, sobre a situação de Portugal, mormente no confronto entre os que executam o poder e os que com o mesmo conflituam. Muito sinceramente, de há muito não via uma tão grande argolada da agência de espionagem dos Estados Unidos. Mas, para que se consiga separar o mito da realidade, vou aqui contar uma história real, passada ainda no tempo de Salazar no poder, e que envolveu, precisamente, a CIA.

Contrariamente ao que pode imaginar-se, a CIA, ainda no tempo do seu primeiro diretor, Allan Dulles, manifestava uma ignorância ampla sobre o PCP e a sua estrutura de clandestinidade. O seu representante em Lisboa - foram diversos - mantinha uma amizade muito sólida com um académico português, de uma das faculdades de Lisboa. Uma amizade que se estendia, por igual, e numa espécie de competição, às embaixadas francesa e alemã.

A razão deste interesse era diversa: inteligência superior, personalidade do interior do regime, acesso constante às mais altas personalidades e estruturas desse regime, e um conhecimento muito singular sobre o marxismo e sobre o comunismo, domínio em que Portugal dispunha de uma estrutura completamente desconhecida para a CIA, e que era a estrutura clandestina do PCP.

Um dia, por via de uma universidade norte-americana, o referido académico foi convidado, durante uma sabática, a visitar os Estados Unidos por uns meses. Sabendo do interesse dos Estados Unidos e de que o mesmo poderia conflituar, na prática, com o de Portugal, o académico fez a sua viagem de barco - dispunha de tempo - e usou um passaporte fornecido pela PIDE, ou seja, vermelho, que se sabia só servir para uma viagem, de ida e vinda. Deste modo, ao chegar a Nova Iorque, o Serviço de Imigração e a CIA, que o esperavam, de imediato ficaram a saber que o convite seria recusado, mas que haveria lugar a diálogo. Nem foram precisas mais palavras. Outros tempos. Tempos em que o patriotismo estava acima do expectável nas relações com um Aliado.

Conto esta história, já aflorada no meu texto, ACERCA DE GOA, DAMÃO E DIU, para salientar que a CIA, nesse tempo, não só conhecia muito pouco sobre comunismo - nada sobre a estrutura clandestina do PCP e partidos irmãos -, como por igual desconhecia quase tudo sobre as diversas tentativas de golpe destinadas a derrubar o regime da Constituição de 1933. Uma ignorância quase total sobre a vida portuguesa do tempo, o que mostra que o funcionário da CIA em Lisboa pouco ou nada ia sabendo, e informando, sobre a vida política portuguesa.

Ora, há dias, em pleno sítio da CIA, esta expôs a Associação dos Oficiais das Forças Armadas, (AOFA), a UGT, a CGTP, os Precários Inflexíveis e o Tugaleaks.com como os principais grupos de pressão hoje existentes em Portugal! Bom, fiquei estarrecido!!

De facto, é preciso nada saber de Portugal para colocar a UGT como uma das mais importantes estruturas de pressão sobre o poder! E mesmo a AOFA não deixa de causar alguma graça, porque hoje, manifestamente, os militares portugueses de há muito perderam a motivação que conseguiram acalentar antes de 25 de Abril de 1974.

A CIA não consegue ainda perceber que a causa principal do Movimento das Forças Armadas foi a criação do Quadro Especial de Oficiais, (QEO), com a secundarização dos oficiais do Quadro Permanente, que é um cenário já hoje completamente desaparecido. Naquele tempo, os oficiais do Quadro Permanente tinham às suas costas comissões diversas em defesa do Ultramar Português, ao passo que hoje os que existem são vulgares profissionais. Se a Pátria e a sua soberania foram delapidadas, como pode esperar-se patriotismo?

A simples tentativa de transformar a GNR num quarto ramo das Forças Armadas, que nem pelas cabeças de Salazar e Marcelo passou alguma vez, mostra que tal ideia acabou por vir a ser posta no primeiro exercício governativo de José Sócrates, mas sem que um ínfimo de reação se suscitasse junto dos militares, hoje já com um espírito completamente profissionalizado e já só preocupados - e compreende-se que assim seja - com a sua situação material.

Mas a CIA vai mais longe, ao colocar a UGT como um elemento de pressão! Muito sinceramente, não se chega a perceber ao que parece a CIA continuar a andar. Eu ainda posso compreender que os seus funcionários tenham tentado explicar nunca lhes ter passado pela cabeça o que eu expliquei a uma amiga, em plena Nazaré, no Agosto de 1982, salientando que iria chegar o dia em que seriam lançados aviões sobre as cidades, mas imaginar a UGT como uma estrutura de pressão sobre o atual poder, bom, só por boa vontade deste último.

Se a CIA tivesse escrito que os Precários Inflexíveis ou o Tugaleaks.com contivessem algum risco de incontrolabilidade, bom, vá que não vá. Mas chegar ao ponto de os considerar como fatores de pressão sobre o poder, num País onde a generalidade da população nunca dá a cara, ao menos em termos de opinião, bom, é já matéria a poder ser utilizada como fator de graça. Ao que eu direi: têm uma graça que nem uma caraça, relembrando os meus tempos de infância.

Mas a histórica CIA conseguiu voltar a ser posta a ridículo, ao saber-se agora, por via de antigos funcionários seus, que os Estados Unidos, Israel e a Europa sabem que o Irão não tem qualquer arma nuclear, e que, mesmo que a queira fazer - não quer -, terão de passar ainda uns bons anos. E porque haveria o Irão, tal como eu escrevi por tantas vezes, de pretender possuir armas nucleares? Porque se as tivesse, o que iria fazer com elas? Nada! Porque no dia em que o tentasse, deixaria de existir como país, povo e território. Simplesmente ridículo!

Convém não esquecer, a este respeito, as declarações de Mamute Armadilhajá em Pequim: eles - os Estados Unidos - não têm nenhuma prova de que temos armas nucleares. Tal como na altura escrevi, só pode dizer-se uma coisa destas quando se sabe que tal prova nunca poderia ser exibida. E não podia porque as armas não existiam, para lá da realidade já consabida da mentira pregada ao Mundo com as armas de destruição maciça do Iraque: mais de duzentos mil mortos...

Mas o ridículo também nos atinge, tanto por lamentáveis razões, como por outras, mas mais brincalhonas. No primeiro caso, tem-se a morte sem nexo do jovem, Vítor Mota, em Lloret de Mar. Fala-se agora em suicídio, mas a verdade é que uma tal decisão terá de ter uma causa. Ora, o jovem era muito bom aluno e excelente rapaz. Só que nas televisões, os ditos especialistas, só nos falam de álcool, quando se sabe, e bem à saciedade, que por toda a Catalunha, mormente em Lloret de Mar, a droga, como usa dizer-se, é mato. E quem diz droga, diz a grande criminalidade organizada transnacional.

Temos, pois, que esperar pelo resultado da autópsia e dos exames toxicológicos, mas convém que não se ande por aí só a falar de álcool, evitando sempre tocar em droga, porque as duas realidades estão omnipresentes em Lloret de Mar. É essencial que as nossas televisões sirvam a nossa juventude, mas informando-a da realidade que está omnipresente por toda a Catalunha, muito em especial em Lloret de Mar.

Por fim, as grandes pândegas do PSD e do PS. A primeira foi agora bem salientada pelo texto do antigo Primeiro-Ministro, Pedro Santana Lopes, num semanário, onde refere que uma boa parte dos barões do PSD ajudaram a derrubar o seu Governo, assim jogando com José Sócrates no poder. Uma evidentíssima realidade, logo percebida ao tempo, e de que sobressaiu o histórico texto de Aníbal Cavaco Silva, sobre a Lei de Gresham, em torno da boa e da má moeda. Sem esse texto, ainda hoje duvido da queda do Governo de Pedro Santana Lopes.

A segunda pândega - a do PS -, é a que se passa ao redor do híper-fraco desempenho de António José Seguro à frente do seu partido. Só por esta razão se poderão explicar as modificações que agora se estão a operar no PS, absolutamente fora de toda a lógica mais ínfima. É, no fundo, uma outra lei: a da fixação no poder, mal o mesmo é atingido. Ou, de outro modo, mudar um ângulo raso mal se chega ao poder. Fantásticas pândegas que bem poderão servir para ocupar o tempo de um fim-de-semana meio chuvoso.

 

 
Tem de se autenticar (ou registar-se, se ainda não possui uma conta) para poder adicionar comentários a este artigo.

| Mais