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10

Mar

AS IMAGENS DE FLORENCE CASSEZ
Opinião
Escrito por Hélio Bernardo Lopes   
AS IMAGENS DE FLORENCE CASSEZ

 

helio_bernardo_lopesOs que me dão o gosto e a honra de acompanhar os textos que diariamente vou escrevendo, terão lido esse meu de ontem, AS IMAGENS, por onde procurei mostrar que, só por si, as mesmas valem pouco, porque não se pode aquilatar sobre o lugar onde ocorreram.

Dei mesmo um conjunto razoável de exemplos de manipulação de factos que são hoje já bem conhecidos.

O que é certo, é que, por razões culturais e estratégicas, os Estados Unidos estão desejosos de entrar em guerra na Síria, bem como no Irão, só não o fazendo pela situação económica e financeira em que se encontram, mas também porque uma tal iniciativa, a tão poucos meses da eleição presidencial, poderia ser muitíssimo arriscada para a reeleição de Barack Obama.

Ora, ontem mesmo um juiz do Supremo Tribunal Federal do México, a quem foi entregue o recurso da condenação da francesa, Florence Cassez, que vivia em união de facto com um mexicano, veio defender que a condenação deve ser anulada e posta a francesa imediatamente em liberdade. E defende esta posição, que foi já felicitada por Sarkozy, pelo facto da detenção em causa ter violado regras absolutamente elementares.

Acontece que da detenção de Florence Cassez e do seu companheiro foi possível que os mexicanos tivessem visto nos canais televisivos a respetiva detenção em direto, numa operação de forças especiais, que também permitiu que tivessem sido libertados uns quantos reféns. Toda esta operação foi transmitida em direto pela televisão, que acompanhou a mesma. Os mexicanos viram todas estas imagens. Ou será que viram o que não era uma realidade?

Pois, o Supremo Tribunal de Justiça do México mostrou que tal cenário era artificial, porque as detenções haviam tido lugar na véspera. Porém, para os mexicanos e para o tribunal que condenou a francesa e o seu companheiro, as imagens da montagem do dia seguinte acabaram por se transformar num elemento probatório essencial.

Como se torna evidente, esta encenação foi feita de acordo com os desejos de bom trabalho da polícia mexicana. Acima de tudo, até como hipótese pessimista, tem de ser esta a conclusão, restando ainda saber se algum procurador também participou nesta peça de teatro e também se o canal televisivo em causa sabia o que estava a passar-se.

Aqui está, pois, os enormíssimos riscos de se dar crédito a imagens que nos chegam sem que possamos confirmar a origem e as condições em que foram obtidas. Quem no-las apresenta pode ter feito o que entendeu e como entendeu, tendo em vista criar um estado de opinião que possibilite uma decisão que, em princípio, não deva ser tomada de ânimo leve.

De resto, Barack Obama, com razão, teve há dias a oportunidade de salientar que os que pedem guerra a qualquer preço o fazem, com frequência, de ânimo leve, até por não disporem de informação detalhada, a que não têm acesso. Embora, como também já se pôde ouvir-lhe, não esteja excluído um apoio militar aos rebeldes sírios. Um apoio militar que, como é evidente, é o que tem permitido o que se tem vindo a ver.

O resultado de toda esta triste iniciativa já agora se está a poder ver, entre outros lugares, na Líbia, por via da tentativa separatista do Leste do país. E o que nos diz agora o democrata que dirige o Conselho Nacional de Transição? Bom, que poderá vir a usar da força, se se persistir em ir por aquele caminho. A força... Sempre a força...

No entretanto, e em oposição aos desejos dos falcões americanos, a China diz-nos agora que o Governo Sírio está disposto a participar no plano por si apresentado. Um plano que pressupõe as propostas de Kofi Annan, ou seja, que se opere uma real cooperação dos oposicionistas sírios, dado que, no seu entendimento, uma intervenção militar exterior tornaria tudo ainda pior. Uma evidência já muito bem dominada.

E foi neste caldo de incerteza que o Vice-Ministro do Petróleo e dos Recursos Minerais - já reparou, petróleo e recursos minerais?...-, Abdo Hussamedine, se determinou a desertar para o lado rebelde. Só que cometeu dois erros: teve que ler um documento, incapaz de explicar o que é simples, e referiu os riscos dos seus familiares, o que se sabe não poder ser verdade, dado que se assim fosse, tal cenário sempre se voltaria contra o Governo da Síria. Ou seja, e quase com toda a certeza, um malandro, que, depois de servir o Estado sírio por trinta anos - já desde o pai Assad, portanto...-, só agora, já com a água pela cintura, se apercebeu do mal dos Assad para o seu povo...

Portanto, caro leitor, vá estando atento e tome nota, por escrito, na sua agenda, daquele nome - Abdo Hussamedine -, porque se o poder mudar na Síria, sendo conhecedor das problemáticas do petróleo e dos recursos minerais, ainda o iremos ver à frente do novo Governo e a ser recebido nas chancelarias europeias e na Casa Branca.

Mas uma coisa é este malandro jogar a sua cartada, talvez até sem grande risco, outra o vir a sair-se bem no futuro. Neste aspeto, não terá nunca vida fácil, porque ele deve saber bem que o seu país, como se dá nos ambientes islâmico ou árabe, não se dá lá muito bem com as democracias à moda ocidental, para mais com os resultados que se vão vendo. Esteja atento e tome a nota que lhe pedi.


CONSONÂNCIA

 

Como é do conhecimento dos que acompanham as coisas do Mundo, mormente as que envolvem conflitualidade ou risco, os Estados Unidos, nomeadamente através de relatórios anuais da Secretaria de Estado, têm o hábito de quantificar, ou de seriar, os países à luz de critérios próprios em torno daquelas matérias.

Ora, um dos domínios onde essa seriação é feita é o da propensão dos Estados para certos tipos de criminalidade, de que se destaca, naturalmente, a lavagem de dinheiro. E não é difícil, mesmo para um leigo, elencar uma dezena, mesmo duas, de países que podem ser considerados problemáticos neste domínio e noutros a ele ligados.

Acontece que o Vaticano só agora, e pela primeira vez, é colocado na lista dos Estados onde deve ser considerado preocupante a lavagem de dinheiro. A razão apontada pela Secretaria de Estado dos Estados Unidos é o facto do Vaticano possuir uma jurisdição preocupante, visto ser muito vultuosas e dispersas pelo Mundo as fontes de transferência de dinheiro de, e para, o Vaticano. Nada é, aliás, mais natural.

Por ser esta a realidade, o Vaticano, há perto de um ano, começou a procurar pôr em vigor uma estratégia anti-lavagem de dinheiro. Simplesmente, existe o passado, que certamente se manterá vivo, e estão a surgir dados novos a partir de fontes credíveis, até conhecidas, sobre uma má vontade crescente em certos setores do Vaticano ao redor das medidas assumidas por Bento XVI em matérias melindrosas diversas.

A verdade é esta: se com um serviço secreto mais ou menos brincalhão se viu o que se viu a propósito da Maçonaria, imagine-se o que poderá dar-se com um Estado como o Vaticano, mas por via, por exemplo, do dinheiro carreado para si pela Opus Dei... Bastará recordar, por exemplo, todo o financiamento que foi feito ao Solidariedade, na Polónia, ainda no tempo de Jaruzelsky. Escavando um pouco, e pode bem explodir uma bomba nuclear, mas de fragmentação... Um relatório completamente em consonância com a realidade mais que expectável.


A MANIA

 No decurso de um qualquer noticiário televisivo de há dias, tive a oportunidade de escutar de Alexandre Soares dos Santos estas palavras: é preciso acabar com a mania dos salários dos ricos! Simplesmente, se continuarem os portugueses a dispor de uma razoável liberdade de informação, tal ideia sem nexo não será exequível.

Acontece que é fácil compreender a razão desta minha ideia: a mania dos salários dos ricos deriva do facto destes se situarem numa sociedade onde, para lá da singularidade daquela condição, o espetro humano envolvente se situa nos antípodas e muitíssimo atingido pelo desemprego, pela pobreza e pela miséria. Gente, aos milhões, que vive num clima de constante ansiedade e sem condições de segurança pessoal e familiar capazes.

Nenhuma pessoa normal terá a mania dos salários dos ricos se conseguir viver com o essencial para poder levar uma vida digna e sem sobressaltos, muito em especial nas circunstâncias de contingência da vida. A generalidade das pessoas portuguesas está-se nas tintas para a riqueza e para os salários dos ricos, não se dispondo, minimamente que seja, para lá do Euromilhões, a procurá-la.

A tal mania dos salários dos ricos é um reflexo natural da posição de Portugal como lanterna vermelha do mundo desenvolvido. Os ricos só são visíveis e pomo de conversa por via da miséria que os rodeia e da sua insensibilidade a tal situação. Qualquer um minimamente inteligente sabe que um potencial só produz trabalho se tiver um outro menor. Se a diferença for pequena, o trabalho será também pequeno e os seus efeitos não se farão sentir muito. Mas se for enorme, bom, os seus efeitos podem ser isomorfos aos de uma descarga elétrica forte.

Ou seja, a descarga elétrica que tanto cansa Alexandre Soares dos Santos - a mania dos salários dos ricos - só tem lugar e é maçadora porque a diferença de potencial tem dimensões próximas do Grand Cannion. Seria bom, pois, que o líder da Jerónimo Martins prestasse atenção ao artigo de António da Cunha Duarte Justo, surgido no MUNDO LUSÍADA, a propósito de uma INVESTIGAÇÃO SOBRE IMORALIDADE NA RIQUEZA.

A verdade, porém, é esta: tenho as mais sérias dúvidas sobre a capacidade de Alexandre Soares dos Santos para poder reconhecer as elementares considerações deste meu texto, bem como o que refiro a propósito de António da Cunha Duarte Justo. E a razão é simples: se tivesse, não continuava a falar deste tema como de há muito se lhe vem ouvindo.

 
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