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08

Mar

A PETIÇÃO
Opinião
Escrito por Hélio Bernardo Lopes   
A PETIÇÃO

 Foi finalmente entregue na Assembleia da República a petição intitulada, PEDIDO DE DEMISSÃO DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA, referido ao Presidente Cavaco Silva, e que recolheu mais quarenta mil assinaturas de peticionários, certamente quase todos portugueses.

 

Este movimento social, de raiz política, teve, no meu entendimento, duas causas: uma de raiz geral e mais longínqua no tempo, e outra de natureza mais específica e muitíssimo mais recente. A primeira, como todos terão percebido, tinha uma natureza difusa, cumulativa lenta, e nunca teria sido suficiente para mobilizar tantos portugueses ao redor desta iniciativa. Tal movimento de tantos portugueses só pôde iniciar-se por via das infelizes considerações do Presidente da República em torno do custo de vida atual, sem precedentes, e que, pelas suas palavras, também o atingiria.

Simplesmente, os que assinaram esta petição, se acaso dispunham de algum conhecimento político-constitucional, sempre terão percebido que tal iniciativa possuía, tão-só, um caráter simbólico, embora deveras importante, sobretudo, perante o enorme número de portugueses que veio a subscrever a referida petição. Ou seja, o seu valor foi essencialmente simbólico, mas ficará a marcar a História da III República Portuguesa, para lá do mais, pela sua singularidade e por se inserir num movimento tradutor de uma desilusão profunda que assentou arraiais junto de uma imensidão de portugueses em torno da qualidade política do exercício da função presidencial por parte de Aníbal Cavaco Silva.

Torna-se, porém, claro que ao Presidente Cavaco Silva não poderão nunca ser assacadas responsabilidades por traição à Pátria, ou por denegação de justiça ou por atentado contra o Estado de Direito. De resto, e sobre este último tema, convém que se tenham presentes as palavras do Presidente do Supremo Tribunal de Justiça a propósito do caso com que se tentou envolver o anterior Primeiro-Ministro, José Sócrates.

De quanto se pode hoje compreender sobre o estado de espírito da coletividade nacional, a generalidade dos portugueses, até onde a consigo medir, não reagiria com tristeza à saída de funções do Presidente Cavaco Silva, mas não por ter cometido um qualquer ilícito, sim porque o que muitos dele esperavam em matéria do exercício da função presidencial se saldou numa profunda desilusão.

A petição está, pois, aí, e foi ontem mesmo entregue na Assembleia da República. Mostrou-se, deste modo, ao País e aos portugueses, mas também aos que, do lado de fora, acompanham a vida política portuguesa, que uma excelente e representativa amostra de portugueses, muito para lá do tradicional desinteresse nacional pela vida pública, mostrou o seu desagrado profundo pelas afirmações do Presidente Cavaco Silva, dada serem pouco claras, completamente ilógicas e revelando um distanciamento da realidade duríssima da vida dos portugueses destes dias. Infelizmente, esta projetar-se-á por muitos dos futuros anos.

Tal como pude já escrever, até por vezes diversas, a escolha de Aníbal Cavaco Silva para o cargo cimeiro de Presidente da República, foi o maior erro dos portugueses desde a manhã de 25 de Abril de 1974. Mas o erro está cometido e há agora que tê-lo presente no futuro, não voltando a cair na sua repetição. Isto mesmo é quanto se pode inferir do resultado vasto, absolutamente singular, desta petição.

 
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