Seg 01 Fev |
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A nossa comunicação social de maior projeção, muito em especial a escrita, trouxe abundante informação sobre a vida profissional, académica e política de Alberto Ralha, pelo que me dispenso aqui de voltar a referir tais aspetos, preferindo abordar outros de que pude tomar conhecimento pelo próprio. Ainda antes do 25 de Abril, Alberto Ralha esteve à frente do Secretariado da Reforma Educativa, lugar para que foi nomeado por Veiga Simão, então Ministro da Educação do Governo de Marcelo Caetano. Em certo dia, Veiga Simão expôs aos portugueses, através de uma intervenção televisiva, os objetivos da reforma que se propunha implementar, aproveitando para convidar, todos os que assim entendessem, a contribuir com ideias para essa mesma reforma. E se assim Veiga Simão o fez, de imediato segui o seu conselho, sobretudo, por ter sempre vivido com entusiasmo a temática da Educação. Deitei mãos ao trabalho e, sem sequer dispor de máquina de escrever, elaborei um texto com umas dezenas de páginas, onde desenvolvia os meus pontos de vista sobre o que estava em causa, enviando-o para o tal organismo que o ministro referira. Sem que minimamente o esperasse, eis que uns dois meses depois recebi uma carta com duas páginas, assinada, precisamente, por Alberto Ralha, agradecendo, em nome do ministro, o trabalho enviado, garantindo que o mesmo merecera a conveniente atenção, e indicando até aspetos concretos que haviam merecido compreensão e apoio. Foi o meu primeiro conhecimento da existência de Aberto Ralha. Mais tarde, em reuniões do Gabinete de Estudos CDS histórico, onde eu era, digamos assim, o número dois, vim a conhecê-lo, num encontro que teve poucas repetições. E pude falar com o próprio sobre o tal meu trabalho, tendo-me parecido que foi sincero quando referiu que se lembrava do mesmo pela singularidade do nome, ao tempo ainda pouco corrente. Foi nessa conversa que tomei conhecimento da existência da sua casa na margem sul do Tejo, em cujo átrio de entrada existia um pequeno quadro, suscetível de ser visto dos dois lados. Num deles, uma qualquer pintura realmente funcional, e que era o visível quando ali se encontrava com a família. No outro, um grande símbolo da radioatividade, por sob o qual se podia ler: neste momento está a ser atingido por radiações que lhe podem ser fatais, e cujos efeitos se começarão a fazer sentir dentro de cerca de oito dias. Era o lado visível quando se encontrava ausente. Ao mesmo tempo, se o assaltante ainda persistisse em roubar qualquer coisa, iria encontrar sobre a sua secretária uma carta meio escrita, em papel timbrado da Polícia Judiciária, com um envelope da mesma instituição, mas que havia sido pintado, por dentro, com sumo de limão, de molde a poder ser identificado se o tal ladrão se determinasse a roubá-lo e a usá-lo. Um pequeno Sherlock Holmes. Muitos dos que o conheceram, ou dos que simplesmente souberam da sua existência, nunca terão sabido que Alberto Ralha, de facto, e apesar do imenso saber e da enorme cultura científica que todos lhe reconheciam, nunca se doutorou. Um tempo, pois, muito diferente do atual, onde tudo vale pela aparência, para lá do seu real valor substantivo. Agora sim, é que estamos no tempo dos doutores! E com que resultadão!! Dele ouvi uma engraçadíssima história, envolvendo um académico meu conhecido e amigo, e que era - é-o ainda hoje - muito brilhante. Tinha este professor o hábito de constantemente atacar Veiga Simão nos jornais do tempo, e dentro do grau de liberdade então concedido pela Comissão de Aviso Prévio. Em certo dia, em face da mágoa sentida por Veiga Simão, Alberto Ralha chamou ao seu gabinete de Diretor-Geral do Ensino Superior e das Belas Artes o referido académico, a quem comunicou a mágoa do ministro, salientando-lhe que não tinha razão no que escrevia. Para lhe provar que as coisas eram assim mesmo, mostrou-lhe um conjunto de pastas que se encontravam sucessivamente dispostas sobre a sua grande secretária de reuniões. Cada uma delas referia-se a um professor de uma das nossas universidades (públicas, claro está), e no seu interior lá estavam as carimbadelas vermelhas da Direção-Geral de Segurança, salientando, pois, que poderia existir inconveniente na contratação desse académico. Como Alberto Ralha ali mostrou ao académico opinador, todos estavam a exercer a docência por via da nomeação do ministro, que não tinha, claro está, que seguir o parecer daquele organismo. De resto, sempre havia sido assim. Por fim, uma realidade razoavelmente conhecida no mundo académico, e que era o facto de Alberto Ralha ser um membro da Opus Dei. Mas o mais importante de tudo era, indibutavelmente, o seu saber, a sua extrema simpatia e o seu caráter evidentemente bondoso. Até onde pude perceber, subsistiu sempre em mim a ideia de que se tratava de um homem bom. |
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